Restauração da imagem de mais de 300 anos de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais avança em Curitiba

Trabalho detalhado de restauração valoriza história de Curitiba e preserva peça única da padroeira da cidade durante mês de celebração

Durante o mês em que Curitiba homenageia sua padroeira, Nossa Senhora da Luz dos Pinhais, uma das imagens mais antigas e simbólicas da cidade recebe atenção especial. A escultura do século XVIII está passando pela fase final de restauração, que começou no início deste ano. O projeto envolve uma equipe multidisciplinar e diversos recursos técnicos, renovando o valor histórico e artístico da peça.

Produzida em Portugal entre 1716 e 1720, a imagem é a segunda representação da santa a chegar na capital paranaense, tendo acompanhado eventos-chave da história local, como a fundação da Igreja Matriz, atual Catedral Basílica Menor. Além da recuperação física, a restauração também revela aspectos técnicos e iconográficos pouco comuns, ampliando o conhecimento sobre a arte sacra da época.

As informações são de um projeto coordenado pela Fundação Cultural de Curitiba, em parceria com o Museu de Arte Sacra da Arquidiocese de Curitiba (Masac) e a Universidade Federal do Paraná (UFPR), detalhadas em coletiva e documentos do programa de incentivo cultural da cidade.

Detalhes únicos revelados pela perícia técnica

A peça pesa cerca de 60 quilos e é feita de terracota com preparação à base de branco de chumbo, uma técnica rara para esculturas, normalmente empregada em pinturas para realçar profundidade. Segundo a restauradora Ana Eliza Caniatti, “o uso dessa base no tridimensional é algo mais raro”, o que reforça a importância do trabalho.

Tecnologias como radiografias e espectrometria de massas foram essenciais para analisar camadas antigas, identificar pigmentos como o azul da Prússia e comprovar a autenticidade de detalhes. Essas técnicas também permitem conservar marcas das ações humanas e do tempo sobre a imagem, por exemplo, dedos quebrados que não serão reconstruídos para preservar as características históricas originais.

O valor religioso e cultural da obra na memória da cidade

A escultura não exerce mais função religiosa tradicional, mas seu valor vai além do aspecto devocional, sendo um documento museológico precioso que traz dados sobre as práticas artísticas do século XVIII e a história da cidade. Gilmar Kaminski, produtor do projeto, afirma que “além da imagem, o projeto se amplia para algo que se relaciona com a própria história da cidade”.

Esse aspecto influencia as decisões da equipe, que conta com avaliação constante do Patrimônio Cultural da Prefeitura e respeita intervenções históricas, o que inclui não refazer partes danificadas quando não houver referências claras, preservando assim o testemunho material do passado.

Financiamento e promoção da cultura local

O projeto de restauração, aprovado pela Lei municipal de Incentivo à Cultura, é resultado de um esforço colaborativo de cerca de 15 profissionais, incluindo historiadores, pesquisadores, restauradores e fotógrafos. Gilmar Kaminski ressalta a importância do apoio: “conseguir realizar o projeto por meio da lei de incentivo possibilita desenvolver o trabalho de forma consistente, com uma equipe completa”.

Após a conclusão da restauração ainda em setembro, o Masac pretende promover palestras e visitas guiadas para disseminar o conhecimento sobre a obra e o processo de conservação, promovendo maior conexão da população com seu patrimônio histórico.

A devoção e a história da padroeira Nossa Senhora da Luz dos Pinhais em Curitiba

A devoção à Nossa Senhora da Luz tem origem na Europa, com raízes no século XIV na Espanha e Portugal. Em Curitiba, a presença da santa data do século XVII, com a primeira imagem chegando por volta de 1640, originando a lenda que marca a fundação da cidade. Em 1995, ela foi oficialmente declarada padroeira municipal pelo Papa João Paulo II.

A escultura restaurada, com 87 centímetros de altura, integrou o altar da Matriz até 1894 quando foi transferida para a Lapa, ficando desaparecida por décadas até seu redescobrimento em 1970. Atualmente exposta no Museu de Arte Sacra da Arquidiocese, a peça segue valorizando a religiosidade e a cultura curitibana.

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