Na coletiva realizada no gastro pub Cão Véio, a organização do festival contou um pouco da sua história e explicou a dinâmica do Jubileu de Prata desta edição. Lucas, anfitrião do Cão Véio, Vlad (Sick Sick Sinners), Rúbia (As Cigarras e The Aliens) e Wallace (Ovos Presley) reforçaram que, no Carnaval de Curitiba, entre os paralelepípedos da cidade, é onde os psychobillys reinam e a música explode em caos.

XV Curitiba – Quando vocês começaram lá nos anos 2000, vocês sofreram algum tipo de preconceito por realizar um evento de rock no Carnaval?
Vlad Urban – Algumas vezes teve conversas sobre isso e eu tive o privilégio de vivenciar uma interação genial com o Claudio Ribeiro, que é um sambista proeminente aqui de Curitiba, um cara que chegou até a escrever com o Cartola. Participamos de uma entrevista juntos na Educativa e nesse dia eu estava junto com o pessoal do Hillbilly. Foi muito legal porque era um pouquinho da gente e um pouquinho dele e ele ficou ali para nos ouvir. O Claudio é um cara espetacular e foi interessante porque veio essa pergunta do Psycho Carnival e do Carnaval tradicional. Como a gente estava com a banda, o Cláudio pediu para o Juliano, que era o baterista do Hillbilly, fazer uma levadinha de caixa, uma marchinha, e ele começou a cantar samba. Acho que esta é a grande proposta do PsychoCarnival. A trilha sonora pode ser diferente, mas é Carnaval, é festa, é alegria. Por mais que haja algum ruído de algumas pessoas que possam pensar que isso é uma deturpação do Carnaval, eu digo que não é. É um tipo de Carnaval e acho genial que Curitiba tenha essa diversidade, com samba, com rock, blocos, música gótica, música clássica. Se formos falar do Carnaval de Curitiba, é importante frisar que aqui existe essa diversidade.
Entrevista coletiva – Hoje tem até o reconhecimento do poder público, que incluiu o PsychoCarnival no calendário oficial da cidade.
Vlad – Já são um quarto de século promovendo esse intercâmbio cultural, trazendo pessoas e bandas do mundo inteiro. São bandas da Holanda, França, Japão, América do Norte, América Latina. Estamos incentivando momentos culturais nessa relação com bandas de Curitiba, enriquecendo a cena cultural da cidade.
Entrevista coletiva – Pelo fato de Curitiba, há alguns anos, ser reconhecida como uma cidade que não tem Carnaval, você acha que isso contribuiu para firmar o PsychoCarnival como evento carnavalesco?
Vlad – Eu acho que sim, mas não é só o PsychoCarnival. O Garibaldis e Sacis teve uma importância muito grande nisso, porque começamos juntos em 2000. Essa nova cara do Carnaval de Curitiba tem muito do incentivo deles, fazendo com que hoje aconteçam tantos eventos carnavalescos. Existe o pré-carnaval dos blocos, que está super legal pelos bairros e Ruas da Cidadania. O Psycho, junto com eles, trouxe essa cultura de fazer eventos. Existe um estigma de que curitibano não gosta de Carnaval, mas se não gostasse não iria para Caiobanda ou Guaratubabanda. O PsychoCarnival veio nessa contramão, montando um Carnaval diferente, com cara de rock, mas que trouxe mais eventos para a cidade. Muitos Carnavais independentes surgiram a partir disso, como Metal Carnival e Gothic Carnival. Também houve uma visão do setor público de enxergar que Curitiba gosta dessa diversidade, além de termos uma cena de samba muito forte.
Entrevista coletiva – Como funciona a curadoria e a escolha do line-up, especialmente nesta edição de 25 anos?
Vlad – Temos pessoas da curadoria que moram no exterior e ajudam na identificação de bandas. Também acompanhamos o público para entender as referências que mais desejam. Nesta edição quisemos trazer o Batmobile, que foi a primeira banda grande de Psychobilly que trouxemos ao Brasil, em 2006. Para o jubileu de prata, queríamos algo simbólico e eles são icônicos para nós.
Também estamos consolidando uma mudança importante. Mesmo sendo um evento de nicho, o festival está mostrando que é um evento da cidade. Tem muitas bandas de Curitiba, bandas de várias regiões do Brasil, inclusive uma banda de Recife. Também teremos Black Pantera, reforçando pautas como a luta antirracista e apoio a bandas formadas por mulheres. Nesta edição teremos quatro bandas formadas só por mulheres.
Entrevista coletiva – O festival tem se aberto para outros ritmos. Como surgiu essa ideia?
Vlad – Sentimos falta de festivais que conversem com o underground local. O Psycho precisa ter essa mistura. Antes era muito nichado no rockabilly, surf music e garagem. Hoje precisamos abrir portas para mais estilos. Quando bandas importantes demonstram interesse, buscamos viabilizar.
Entrevista coletiva – Quando vocês perceberam o crescimento do festival?
Vlad – Foram vários saltos. Um deles foi quando fomos para o Cine, em 2003, que já comportava cerca de 400 a 500 pessoas. Depois, quando fomos para o Jokers e trouxemos banda internacional. Outro salto importante foi em 2009, no Clube Operário, quando conseguimos ingressos populares via edital da Fundação Cultural de Curitiba e tivemos cerca de 1.500 pessoas no último dia.
Outro momento importante foi o Curitiba Rock Carnival gratuito, com apoio da Prefeitura, no estacionamento da Câmara de Vereadores. Chegamos a ter shows com 5 a 6 mil pessoas. Desde o início, sempre tratamos todas as bandas com igualdade, independentemente do tamanho.
Entrevista coletiva – Fale sobre a parceria com o Cão Véio.
Lucas – Este ano completamos oito anos do Cão Véio e é a quinta edição com o PsychoCarnival. A ideia é fazer o almoço de confraternização do festival. É a oportunidade do fã estar perto do músico, dividir o mesmo espaço. O festival é muito importante para a nossa história e também movimenta bares e restaurantes da cidade.
Rúbia – É emocionante. Estou almoçando e, de repente, vejo uma referência musical ao meu lado. Isso é algo único.
Lucas – No underground é assim. Existe idolatria, mas logo vira um copo de cerveja compartilhado.
Entrevista coletiva – Rúbia, com o novo álbum, vocês percebem maior identificação do público feminino?
Rúbia – Tocar no Psycho é emocionante. Já tocamos no Rock Carnival, Gibiteca, TUC e Jokers. Ano passado lançamos o álbum Fumódromo e agora vamos lançar o EP Sucessos do Futuro, com 12 músicas. Muitas mulheres já nos enviaram mensagens dizendo que virão em grupos para assistir. Ver outras bandas femininas tocando também é incrível.
Entrevista coletiva – Vocês também resgatam bandas que estavam fora da mídia. Como funciona isso?
Vlad e Wallace – Muitas bandas ainda estão ativas, mas fora do radar da mídia. Algumas até pedem espaço. Gostamos de resgatar bandas icônicas que estavam paradas ou em hiato. Isso dá uma identidade especial ao festival.
Rúbia – Eu sou exemplo disso. Minha primeira banda, The Aliens, vai tocar na quinta-feira. Se não fosse ela, eu não estaria nas Cigarras.
Vlad – Muitas bandas ganham nova projeção depois de tocar no festival.
Entrevista coletiva – Como você organiza tocar com mais de uma banda durante o festival?
Rúbia – Tem que fazer planilha e separar bem cada dia. Além disso, trabalhamos na logística do material das bandas. É uma semana intensa. As crianças ficam com a minha mãe durante o Carnaval e só busco na quarta-feira de cinzas. Dá saudade, mas é a correria do festival. Tem que estar tudo muito ensaiado.




