O último dia do Psycho Carnival não foi um ritual de confirmação. Jubileu de Prata são vinte e cinco anos provando que topete, contrabaixo acústico estalando e letras sobre amores mal resolvidos e mortos inquietos são, sim, patrimônio cultural. Oficialmente, inclusive, o Festival integra o Calendário Oficial de Eventos de Curitiba. Nada mais institucional do que um bando de coturnos dançantes reconhecidos pela municipalidade.
No Lado B, a Riste abriu os trabalhos como quem liga o motor de um hot rod enferrujado com seu punk rock direto, cotidiano mastigado sem filtro e engrenagem crua. Psycho Carnival também é isso, a ética do faça-você-mesmo herdada do punk, mas com cheiro de gasolina e trilha de filme B.
Entre um acorde e outro, Ariel Invasor, da Restos de Nada, assumiu a discotecagem lembrando que antes de haver zumbis dançantes havia urgência política. O Psycho Carnival pode falar de túmulos e criaturas da noite, mas nunca deixou de rir do mundo real, porque o horror social costuma ser mais criativo que qualquer roteiro barato.
No Jokers, a noite começou com a surf music dos curitibanos Dirty Quarentine, trazendo suas guitarras reverberadas como ondas noturnas para quebrar lápides imaginárias. Mesmo em uma cidade sem mar como Curitiba, a estética é sempre em uma praia sombria com o cadillac enferrujado estacionado. Cenário que transforma o verão em filme de terror.
Pedro Yes & The No’s trouxeram o garage rock com psicodelia punk, lembrando que o gênero não vive apenas de topetes impecáveis, vive também de distorção suja, de amplificador no limite e da sensação de que a música pode descarrilar a qualquer momento.
Então veio o fino do Psychobilly com Fish’n Creepers destilando seu humor sombrio, crítica social travestida de piada macabra e contos do além-túmulo cantados com sorriso enviesado. O Psycho Carnival sempre operou nesse limiar de jamais parar de dançar sobre o próprio apocalipse com uma elegância debochada.
Diretamente de Reno, Nevada, os Los Pistoleros mostraram que Psychobilly é uma colagem assumida de Horror Punk, Rockabilly, Surf, Outlaw Country. É como se Elvis tivesse lido quadrinhos de terror e decidisse acelerar.
Com quase vinte anos de história, o Krappulas provou que a cena não vive apenas de nostalgia. Esses caras têm peso, rock’n’roll clássico e experiência de palco. A banda amadureceu sem perder o riso torto. Continuam rápidos, técnicos, energéticos, mas para quem assistiu ao show, percebeu que a banda sabe exatamente o que está fazendo.
O Mullet Monster Mafia trouxe a surf instrumental como trilha atemporal, sem letras e sem barreiras idiomáticas, apenas reverberação suficiente para transformar qualquer salão em drive-in fantasma. O PsychoCarnival sempre dialogou com imagens de carros antigos, filmes B, monstros simpáticos e aqui, a imagem estava toda no som.
E então, como exige um Jubileu de Prata respeitável, entrou em cena a história viva. Os holandeses do Batmobile são pioneiros, são arquitetos do gênero desde os anos 80. É a tal da “abordagem holandesa” que fundiu rockabilly clássico com a velocidade do punk de maneira quase científica. Rápido. Técnico. Energético. Fundamental.
Assistir ao Batmobile fechar a noite foi como assistir a uma aula magna ministrada em poesias e pomadas de cabelo. Eles não apenas tocaram, eles reafirmaram os códigos dos slap bass preciso, guitarras cortantes, refrões que parecem ter saído de uma catacumba perfeitamente iluminada.
O curioso é que aquilo que nasceu como subcultura marginal hoje é evento reconhecido pelo poder público. O Psycho Carnival, com seus caveiras sorridentes e narrativas de horror bem-humorado, tornou-se parte da identidade cultural da cidade. Ironia maior não há e talvez seja essa a maior vitória.
O Jubileu de Prata do Psycho Carnival foi além de uma comemoração cronológica, foi prova de consistência. Vinte e cinco anos mantendo uma cena ativa, atraindo bandas internacionais, movimentando turismo, ocupando espaços culturais e formando público. Isso não é “barulheira”. É construção cultural contínua.
A organização merece mais que aplauso protocolar. Merece reconhecimento público reiterado por manter um festival com essa curadoria, essa longevidade e essa relevância. Exige visão, exige persistência e, convenhamos, certa dose de teimosia criativa, virtude indispensável ao espírito Psycho.
Curitiba, disciplinada e às vezes contida, já entendeu que o Psycho Carnival não é um delírio anual, é parte do seu calendário, da sua economia criativa e da sua paisagem simbólica. É cultura viva.
O palco silenciou, mas topetes resistem. E Curitiba, oficialmente e emocionalmente, já está ansiosa pela próxima edição, porque depois de 25 anos, o Psycho Carnival não precisa provar nada, apenas continuar fazendo o que sempre fez que foi transformar horror em festa e ruído em identidade cultural.




