O litoral do Paraná foi cenário de uma mobilização científica que ultrapassou fronteiras. Um filhote de elefante-marinho-do-sul (Mirounga leonina), encontrado na praia de Matinhos, foi resgatado, reabilitado e devolvido ao mar após atendimento especializado. Poucas semanas depois da soltura, o animal já se aproxima da Península Valdez, na Argentina, uma das principais áreas de ocorrência e reprodução da espécie.
O filhote foi localizado em 26 de dezembro durante monitoramento da orla realizado pela Polícia Militar do Paraná. Seguindo o Protocolo de Atendimento a Encalhes de Animais Marinhos do Paraná (PRAE), a equipe do Projeto de Monitoramento de Praias da Bacia de Santos (PMP-BS), executado no estado pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (LEC-UFPR), foi acionada para prestar atendimento imediato.
Encaminhado ao Centro de Reabilitação, Despetrolização e Análise da Saúde da Fauna Marinha (CReD-UFPR), o animal permaneceu por 25 dias sob cuidados intensivos. Após o período de recuperação, foi devolvido ao oceano em 21 de janeiro, em área próxima ao Parque Estadual Marinho da Ilha de Currais.
De acordo com a coordenadora do PMP-BS/LEC-UFPR, professora Camila Domit, o caso chamou atenção por se tratar de um filhote, situação considerada inédita no Paraná. Segundo ela, o registro exigiu resposta rápida e avaliação criteriosa, tanto do estado de saúde do indivíduo quanto dos fatores ambientais que podem ter influenciado seu deslocamento.
Antes da soltura, o filhote passou por coleta de amostras biológicas, recebeu microchip de identificação e, de forma inédita no estado, foi equipado com um transmissor satelital. O equipamento foi instalado pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), responsável técnica pela Área SC/PR do PMP-BS. Leve e seguro, o transmissor foi projetado para se desprender naturalmente ao longo do tempo, sem causar danos ao animal.
O acompanhamento em tempo real permite analisar deslocamento, comportamento, profundidade de mergulho e temperatura da água, fornecendo dados sobre o uso do ambiente marinho. Segundo o biólogo André Barreto, coordenador geral do PMP-BS Área SC/PR, essas informações ajudam a compreender como os elefantes-marinhos escolhem suas rotas e áreas de permanência no oceano.
Cerca de 15 dias após a soltura, o filhote foi avistado em La Coronilla, no Uruguai, onde passou a ser acompanhado por parceiros da ONG Karumbé, especializada em conservação marinha. Atualmente, o monitoramento indica que o animal já está na Argentina, a menos de 800 quilômetros da Península Valdez.
A jornada do filhote evidencia a natureza transnacional da conservação de espécies migratórias. O tema estará em destaque na próxima Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), que terá o Brasil como sede da COP em 2026, em Campo Grande (MS). A convenção é um tratado internacional voltado à cooperação entre países para proteger espécies terrestres, marinhas e aéreas ao longo de suas rotas.
Para a equipe envolvida, o caso representa um exemplo concreto de como monitoramento ambiental contínuo, ciência aplicada e articulação internacional são fundamentais diante das mudanças ambientais globais. A trajetória que começou em Matinhos segue agora rumo às áreas naturais da espécie no Atlântico Sul, enquanto pesquisadores continuam acompanhando os próximos capítulos dessa jornada.





