Desigualdade de gênero e insegurança no transporte público são desafios urgentes para as mulheres em Curitiba, afirmam pesquisadoras e lideranças sociais
Curitiba ainda enfrenta importantes desafios para ser considerada uma cidade segura para todas as mulheres, sobretudo para as negras e que utilizam o transporte público. A falta de iluminação adequada em bairros periféricos e a persistência da violência de gênero foram os temas centrais da audiência pública promovida pela vereadora Laís Leão na Câmara Municipal de Curitiba no dia 5 de março, em homenagem ao Dia Internacional das Mulheres.
O encontro reuniu representantes do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc), da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da sociedade civil organizada. Os debates destacaram que 60% dos usuários do transporte coletivo da cidade são mulheres, que diariamente enfrentam assédio e insegurança nos ônibus e pontos de parada, conforme dados apresentados pela diretora de projetos do Ippuc, Daniela Mizuta.
O evento foi transmitido ao vivo pelo YouTube da Câmara Municipal e evidenciou a urgência de políticas públicas com perspectiva de gênero para tornar Curitiba, especialmente seus bairros periféricos, mais seguros e igualitários para todas as mulheres, segundo as participantes da audiência.
Necessidade de políticas urbanas com perspectiva de gênero para a mobilidade
Daniela Mizuta destacou que a cidade deve ser entendida como um organismo vivo que precisa integrar a perspectiva de gênero em seu planejamento urbano. Ela ressaltou que considerar as mulheres apenas como uma política setorial não resolve as desigualdades. “A política transversal de gênero deve permear diversas áreas do planejamento, como habitação, mobilidade e desenho da cidade”, afirmou durante a audiência.
Segundo Mizuta, o transporte público é um ponto crítico, já que as mulheres representam a maioria dos usuários e estão mais expostas a riscos. “Se um ônibus atrasa e a mulher precisa esperar sozinha, aumenta o tempo de profunda agonia e medo até chegar em casa”, alertou a vereadora Laís Leão ao conduzir o debate.
Falta de iluminação e infraestrutura segura nas favelas aprofunda vulnerabilidades
A líder comunitária do bairro Parolin, Andreia Lima, enfatizou que ser mulher periferica na cidade é enfrentar a ausência de segurança e infraestrutura básica. Ela reclamou da falta de iluminação pública, fundamental para garantir segurança tanto para mulheres quanto para o lazer das crianças na região. “Pagamos conta de luz e no Parolin não há iluminação”, denunciou.
Em resposta, Daniela Mizuta sugeriu medidas como ampliar a iluminação e reduzir o espaço destinado a veículos para aumentar as áreas transitáveis e seguras para pedestres nas regiões periféricas. Essas ações são essenciais para diminuir o sentimento de insegurança e garantir maior proteção para as moradoras.
Violência contra as mulheres é problema estrutural ainda subnotificado
O debate também abordou a violência de gênero em Curitiba, incluindo o feminicídio, que segundo as participantes, ocorre frequentemente dentro de casa e é muitas vezes tratado com descaso pelas autoridades. A professora Geisa Bugs, da UFPR, frisou o impacto da insegurança nas escolhas diárias das mulheres, como evitar determinados trajetos ou deixar oportunidades de trabalho e estudo para não se expor a riscos.
Geisa ressaltou que além das medidas de segurança, são imprescindíveis campanhas de conscientização e educação para transformar a cultura machista que naturaliza a agressão contra mulheres. “Corpos femininos são corpos sem paz”, afirmou uma das participantes, sintetizando a urgência em enfrentar as causas profundas da violência.
Andreia Lima concluiu com um apelo para que a sociedade fique alerta aos abusadores e para que haja transformação social, pois “não podemos continuar passando por esses tipos de violência e de descaso”.
Notícia baseada em informações divulgadas pela Câmara Municipal de Curitiba.



